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segunda-feira, 12 de julho de 2010

Espanha é campeã da copa 2010... Espanha?



A imagem acima provavelmente passou desapercebida do espectador brasileiro, porém, certamente, foi muito bem notada pelos espanhóis, principalmente pelos catalães. A bandeira da Catalunya e a taça,  empunhadas pelo jogador Puyol têm um efeito simbólico muito grande no complexo cenário dos imaginários nacionais da Espanha. A imagem, como informação, pode ser portadora de uma carga simbólica muito forte. Tais imagens-símbolos costumam ser reproduzidas em inúmeros documentos na tentativa de afirmação dos ideais nelas identificados. 

É importante que ao lidar com documentos imagéticos sejamos capazes de diferenciar as imagens (informação) dos documentos que as contém. Na reprodução acima temos várias imagens, mais abstratas, ou menos, porém nenhuma concreta e, de algum modo conflitantes: a vitória (representada pela taça), a Catalunya (representada por sua bandeira), a Espanha (representada por seu jogador) etc. Para tantas imagens (que valem mais do que 1.000 palavras) temos apenas um documento: este post, fruto de meu interesse acadêmico. Um documento com texto e imagem articuladas. 

A imagem, como informação independente de um documento pode ter múltiplos desdobramentos e influências. Podem ser mentais, podem impulsionar "imaginários" políticos e podem ser incorporadas a suportes, constituindo documentos para que tenham maior funcionalidade. A imagem de Puyol com a copa e a bandeira catalã provavelmente será transposta para posteres, camisetas, blogs etc. Longe dos debates, ao menos para mim fica a satisfação de ver que o melhor futebol triunfou.


Mesmo antes da decisão (e antes da comemoração de Puyol) alguns jornais brasileiros já apontavam a tensa relação Espanha-Catalunya no plano simbólico da copa do mundo, com alguns desdobramentos nada simbólicos (veja aqui reportagem do Correio Braziliense). Algumas imagens desempenharam papel crucial no estabelecimento, manutenção ou desarticulação de ordens políticas e sociais, como nos mostra o livro de Tomás Pérez Vejo sobre as guerras de independência ocorridas na América espanhola. Será que a forte imagem do jogador catalão terá maiores desdobramentos, no plano simbólico, no acirrado e histórico embate do nacionalismo espanhol? 

segunda-feira, 28 de junho de 2010

O poder das imagens


Na excelente partida de hoje a Argentina bateu o México por 3x1. O lance curioso, do ponto de vista das imagens ocorreu no 1º gol argentino, marcado como lance legal e depois visto como impedimento do atacante Tevez. Erros de arbitragem são comuns (mais do que se gostaria) e perdoáveis (muito mais do que se deveria), posto que os juízes são seres humanos, sujeitos a erros de interpretação, muitas vezes provocados por fatores conjunturais como a velocidade do lance, posicionamento na jogada etc. O curioso deste lance é que logo após o gol o atacante argentino olha para o bandeirinha, e este último inicia sua corrida em direção ao meio campo, validando o gol. O juiz hesita um momento e depois valida o gol, já em meio às comemorações argentinas. A equipe do México fica imóvel e não reclama de nada (quem cala, consente). Passados alguns instantes surge no telão do estádio a animação que revela a ilegalidade do lance. O fato não passa desapercebido do bandeirinha, que chama o árbitro, e nem da equipe do México que, agora, passa a reclamar de algo que, momentos antes havia sido percebido por eles apenas como um lance normal de jogo. 

Saindo da análise futebolística o episódio é marcante pois indica como a imagem, que nada mais era do que a representação de um momento da realidade, passou a ser mais importante do que a experimentação da realidade ocorrida momentos antes pela equipe mexicana. Uma simples imagem deu novo significado a um fato que já havia sido consumado. Para que isso fosse possível para milhões de pessoas ao redor do mundo simultaneamente a crença nos atributos técnicos e na precisão do aparato fotográfico utilizado teve que ser inquestionável. Mais do que isso, a crença na neutralidade da manipulação gráfica, que produziu uma zona de sombras e marcou, com suposta precisão, o momento exato do lance, teve que ser, igualmente unânime. Tal unanimidade foi responsável pela mudança de atitude da equipe do México, que de resignada passou a se sentir injustiçada e do bandeirinha que chamou o juiz para tentar reverter sua decisão. Os narradores do jogo (que nada comentaram sobre a irrgularidade antes de verem a animação gráfica) e os espectadores também passam a ressignificar o fato (reveja o lance aqui). A simples crença na precisão da imagem televisiva (e no aparato que a produz) é insuficiente para que o fato seja aceito como real pelos espectadores. Somente a animação computadorizada nos devolve a fé na realidade transmitida via satélite, posto que a imagem por si mesma nos é (mesmo com narração) ainda muito polissêmica. 

Nos documentos imagéticos de arquivo tal polissemia somente é eliminada pelo contexto de produção documental, que deverá estar presente nas ferramentas de gestão e organização documental. Com certeza, nesse exato momento, uma cópia de tais imagens já devem ter sido anexadas ao processo de análise técnica do desempenho do trio de arbitragem a ser feito pela comissão de arbitragem da FIFA. O próprio processo, por ser um documento administrativo, buscará eliminar a polissemia e as imagens estarão acompanhadas, não apenas da animação gráfica, de outros elementos, em sua maioria textuais, que não apenas promoverão outra significação do fato, mas que ainda darão algum tipo de encaminhamento administrativo. Nos arquivos da comissão disciplinar, mais importante do que saber o significado de tais imagens é registrar, de modo inequívoco e preciso, as ações administrativas deste órgão, subsidiadas, ou não, por imagens. Elas, como parte integrante de um documento maior, jamais poderão ser, em termos lógicos, desmembradas em função de qualquer interesse de pesquisa.